Ilustração: indústria de celulose e cidades do litoral sul da Bahia

A Suzano confirmou na quinta-feira a expansão da unidade de Mucuri, no extremo sul da Bahia, com investimento estimado em R$ 4 bilhões ao longo de três anos. O comunicado oficial fala em aumento de capacidade de celulose, geração de empregos diretos e compromisso com sustentabilidade — o pacote padrão de qualquer grande anúncio industrial.

Mas quem mora na região já sabia que algo grande estava a caminho. Há pelo menos seis semanas, corretores de imóveis relatam alta de 18% a 25% nos aluguéis de kitnets e casas simples. Restaurantes que atendem turno de obra voltaram a abrir no domingo. E o posto de gasolina na entrada da cidade, que estava meio vazio em abril, hoje tem fila nos horários de troca de turno.

O que está em jogo

A Suzano é a maior produtora de celulose de mercado de curto prazo do mundo. Para o investidor que acompanha a bolsa, o movimento reforça a tese de crescimento em um ciclo em que a demanda chinesa por papel ainda sustenta preços razoáveis. Para Mucuri — população de cerca de 28 mil habitantes — o impacto é outro: transformação do ritmo da cidade.

O projeto prevê contratação de milhares de trabalhadores temporários na fase de construção e centenas de postos permanentes depois. Números impressionam no slide de apresentação. Na prática, significa que uma cidade acostumada a ver jovens partirem para Salvador ou Teixeira de Freitas pode, pela primeira vez em décadas, ter oferta de emprego qualificado sem precisar se mudar.

Mucuri na prática

Conversamos com Seu Antônio, que tem locadora de veículos há 22 anos. Ele não leu o release da Suzano — soube por um engenheiro que alugou três picapes na segunda semana de maio. "Antes, alugava duas, três por mês. Agora, se não tiver cinco na rua, já fico nervoso", conta. O preço do aluguel diário subiu R$ 40, e ele admite que parte do aumento é demanda, parte é oportunismo.

Na escola técnica estadual, a coordenação recebeu visita de representantes da empresa interessados em mapear cursos de manutenção industrial e segurança do trabalho. Não é contrato fechado ainda, mas a diretora já pediu revisão do plano de aulas para o segundo semestre. "A gente vive pedindo parceria com empresa. Quando ela bate na porta, não dá para demorar", diz.

O mercado financeiro precifica o investimento em múltiplos e fluxo de caixa. A cidade precifica em aluguel, fila no açougue e vaga no cursinho pré-vestibular.

Cadeia de fornecedores

O efeito não fica restrito a Mucuri. Teixeira de Freitas, a 80 km, concentra fornecedores de equipamentos e serviços de engenharia. Caravelas e Alcobaça, cidades menores no litoral, recebem trabalhadores que preferem morar perto da praia e aceitam deslocamento diário. O comércio regional inteiro recalibra expectativa.

Metalúrgicas de médio porte em Minas Gerais — sim, Minas — também entram na história. Duas empresas de Itabira e Timóteo confirmaram contratos preliminares para estruturas metálicas. O ciclo de celulose brasileiro sempre teve essa geografia espalhada: a fábrica fica no Norte ou no Nordeste, mas a cadeia de suprimentos conversa com o Sudeste industrial.

O que pode dar errado

Nem tudo é otimismo. Especialistas em desenvolvimento regional alertam para o risco de "cidade-barraco": crescimento rápido sem infraestrutura de saneamento, saúde e transporte público. Mucuri já convive com gargalos em abastecimento de água em temporada seca. Mais gente sem investimento público paralelo pode estressar serviços básicos.

No mercado de capitais, analistas citam risco de capex acima do planejado e dependência do preço internacional da celulose. Se a China desacelerar importações, o retorno do projeto alonga — e a narrativa de crescimento perde força na B3. Para a cidade, porém, o cronômetro já começou a correr. O anúncio oficial apenas confirmou o que a rua já tinha sentido.