Ilustração: bancos e comércio de rua

O Itaú Unibanco confirmou em maio um plano de revisão da rede de caixas eletrônicos em municípios com até 80 mil habitantes. A lógica, apresentada a investidores meses antes, é conhecida: transações em espécie caem ano após ano, o custo de manter ATM em cidade pequena é alto e o app resolve a maior parte das demandas. Para o balanço do maior banco privado da América Latina, faz sentido. Para a farmácia em frente à agência que perdeu o terminal, a história é outra.

O Wise Brasil mapeou relatos em cinco cidades — Franca (SP), Passos (MG), Rio Verde (GO), Chapecó (SC) e Petrolina (PE) — e encontrou um padrão: onde o caixa sai, o fluxo de pedestres na quadra cai entre 10% e 20% na primeira quinzena, segundo estimativas de comerciantes. Não é dado científico. É percepção de quem vive da porta da loja.

A estratégia do banco

Em apresentação a analistas, o Itaú destacou que mais de 78% das transações dos clientes pessoa física já acontecem fora da agência — via Pix, débito automático, cartão e investimentos digitais. A redução de caixas não significa fechamento de agência em massa, mas consolidação: menos pontos de autoatendimento, mais incentivo ao digital. Funcionários foram orientados a ajudar clientes menos familiarizados com tecnologia a migrar para o app.

Para acionistas, a narrativa é eficiência. O banco promete economia operacional e melhor alocação de capital. Para cliente de 68 anos que sacava pensão no caixa toda semana, a narrativa é fila na agência e funcionário pedindo para baixar aplicativo.

Franca como exemplo

Franca, no interior paulista, tem cerca de 358 mil habitantes — acima do corte de 80 mil, mas com bairros periféricos que funcionam quase como cidades satélite. Na Vila Champagnat, o caixa do Itaú na praça central foi desativado em abril. Dona Neuza, que tem papelaria há 31 anos, notou diferença rápido. "Antes, na sexta, vinha gente sacar e comprar caderno, caneta, recarga de celular. Hoje a rua esvazia mais cedo", diz.

O síndico do condomínio ao lado da antiga agência relata que idosos passaram a pedir carona até a agência central, a 2,5 km. Um vizinho organizou grupo de WhatsApp para levar quem precisa sacar — serviço informal que ninguém planejou, mas que surgiu da necessidade.

Banco mede eficiência em custo por transação. Comerciante mede em cliente que entra na porta. As duas contas nunca batem.

Comércio reage

Em Passos (MG), a associação comercial enviou carta ao gerente regional do Itaú pedindo reconsideração do caixa na Rua Arthur Bernardes. O argumento: comércio de proximidade depende de fluxo gerado por serviços essenciais — banco, lotérica, Correios. Tirar um pilar afeta os outros. A resposta, segundo a associação, foi protocolar pedido e oferecer treinamento digital gratuito para lojistas.

Alguns comerciantes adaptaram: passaram a aceitar mais bandeiras de cartão, aderiram a maquininhas com taxa menor e até testam Pix parcelado oferecido por fintechs parceiras. A adaptação existe — mas tem custo. E nem todo pequeno lojista tem tempo de aprender nova ferramenta entre atender cliente e repor estoque.

E as fintechs?

A ironia não passou despercebida. Enquanto o Itaú reduz presença física, Nubank, Inter e C6 expandem pontos de atendimento em shoppings e avenidas de cidades médias. Não são agências tradicionais — são espaços de relacionamento focados em crédito, investimento e suporte. A disputa pelo cliente do interior não acabou; mudou de endereço.

Para o Wise Brasil, a lição é simples: movimentos de grandes empresas financeiras não ficam restritos ao relatório de resultados. Eles reorganizam a esquina, o hábito e, sem querer, definem quem ganha fluxo na rua. O Itaú economiza no ATM. A papelaria da Dona Neuza aprende, tarde demais, que dependia de um serviço que o banco já não queria mais oferecer.